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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

O Brinco

Esse texto, do gênero Conto, é de um amigo jornalista, Thomaz de Molina (mais conhecido como Batata). Tomei a liberdade de publicá-lo aqui, já que é um texto muito bem escrito e com um humor peculiar. Espero que gostem.

O Brinco

Cá estou eu, de quatro feito um cachorro, a farejar a porra de um brinco. Minha mulher vai chegar de viagem daqui a umas duas horas. Ela, as crianças e o cachorro. Se eu não achar o brinco antes de qualquer um deles, estou ferrado. O quarto ainda está de pernas para o ar e eu me sentindo um crápula. Me sentindo, médio. Foi bom. Minto. Muito bom. Minto. Ótimo, virar a loura pelo avesso, conspurcando meu próprio leito conjugal. Ia começar a arrumar a casa quando o telefone tocou.
“Perdi um brinco aí”, ela disse; eu gelei: “Aí, onde?”. A pergunta soou meio idiota. “Sei lá”- a voz macia respondeu pelo outro lado da linha. “A gente fez amor pela casa toda”. Fiquei mudo um tempão. “Alô”- novamente o veludo da voz. A Loura deve ter repetido o alô umas dez vezes. “Pedro?”- meu nome nem Pedro é. “Vê se não liga mais pra cá” , falei a primeira coisa que me veio à cabeça. “Cachorro! Da próxima vez deixo sua mulher achar o brinco”. Não vai haver próxima vez, pensei sem muita firmeza, desliguei o telefone da tomada.
Prioridades: encontrar o brinco, arrumar a casa, apagar as pistas, não necessariamente nessa ordem. Porra, eu podia ter perguntado como é o brinco! De ouro, pérola, estrelinha, pingente, bolinha...bem, agora já foi. Natália, Natália. Não chegue agora, meu bem. Fure um pneuzinho, pare no Rancho da Pamonha, pegue uma blitz da polícia rodoviária, qualquer coisa do tipo. Acidente, não. Meus filhos não podem sofrer um arranhãozinho. Cadê o brinco? Porra! Calma. Vamos reconstruir os passos. Cozinha, primeiro.
A loura, só de avental e salto alto, preparando um tagliatelle com ervas finas. Eu, abrindo a primeira garrafa de Casillero del Diablo, Marvin Gaye espalhando a voz pelo dolby estereo: “Get up, get up, now let’s make love tonight”.... Esquece isso, canalha! Não dá. Eu, colado na marquinha do biquini, ajudando a mexer o molho, mordendo sua orelha... O brinco, porra! Nem reparei se ela estava de brinco! Eu, com a mão por dentro do avental, segurando o seio dela, a loura rindo, perguntando se eu queria que o molho desandasse... O molho vai desandar é se eu não achar o brinco e a Natália achar. Natália, Natália, meu amor, por que você aparece em minha cabeça nessas horas? Quer fazer com que eu me sinta culpado? Tá bom, sou culpado, mas juro que esta foi a primeira vez. Este ano. Nada na pia, nada embaixo do escorredor de pratos, nada embaixo da grelha do fogão. E se o brinco caiu no molho e eu comi? Não, eu teria notado, mesmo que fosse uma perolazinha de nada. Você é louco, cara. Como é que traz uma mulher como essa para dentro do recesso do seu lar, templo sagrado onde seus pimpolhos habitam; santuário da sua esposa fiel. Onde é que você estava com a cabeça? No colo da loura, depois do jantar maravilhoso que ela – já meio alta após a garrafa de Casillero – servira só de gravatinha borboleta e guardanapo de linho branco pendurado no braço.
No colo da loura. Ela já sem o guardanapo – mas ainda de gravatinha – a folhear meus gibis eróticos: Valentina, de Crépax; Druuna, de Paolo Eleuteri Serpentieri; O Clic, de Milo Manara. Estou tentando recordar nossos passos para descobrir onde o brinco pode ter caído. Os passos. Marvin Gaye se foi e Astor Piazzolla atacou de Mano a Mano. Passos de tango com a loura só de salto e gravata borboleta, o cabelo preso no alto da nuca, atrás das orelhas, a orelha onde deveria estar o brinco que eu não vi. Porra! Uma hora dessas, a Natália já deve estar na Marginal Pnheiros. Tomara que o trânsito esteja infernal. Sim, ainda é cedo, todo mundo está vindo para o Centro trabalhar. Aliás, eu deveria estar indo para o Centro trabalhar. Sim, as pistas devem estar todas congestionadas na Marginal, espero.
As pistas. Abrir todas as janelas, deixar o ar circular. Natália tem olfato de perdigueiro. Ai, cacete! Deus queira que ela não sinta nenhum cheiro de perfume, eu não estou sentindo. Trocar os lençóis e fronhas, rápido. O brinco. Pode bem Ter caído embaixo da cama ou se perdido nos lençóis. Se perder nos lençóis. A voz macia dizendo: “Vem amor, se perder nos lençóis” Desculpe, Natália, mas não dava pra deixar passar. Sou um pústula, eu sei. Abominável, no mínimo. Eu penitencio: ando de quatro como um cachorro se você quiser, prometo à minha Nossa Senhora, mas me ajude a achar esse brinco maldito.
Aqui no quarto, no canto, tem uma poltrona Le Corbusier, que a Ná usa pra ler e que eu usei para colocar de quatro a gazela dourada. Que vergonha. Mas ela estava linda como uma estátua de Rodin. O brinco pode ter caído ali, no canto, enquanto eu a cavalgava. Não, não está, não caiu. Porra! Seu panaca! Se você se safar dessa, nunca mais, ouviu? A língua da loura na minha orelha. Eu não ouvi nada. Eram só fluidos, fluidos diversos; e o ouro dos pelinhos da coxa daquela valquíria do sexo, tremendo junto com suas pernas, flamando como minúsculos estandartes. Porra! Vou ter um troço. Minha respiração está ofegante e estou coberto de suor. Tenho que achar o brinco; e antes que Natália chegue, tomar um banho, se der tempo. O banheiro! Só pode estar lá! Claro! Eu vi a deusa loura colocando de volta nos dedos os anéis que deixara num canto da pia. Ela bem que pode ter colocado de volta os anéis e esquecido os brincos. Um deles, pelo menos. Ou os dois. Os dois. Eu e ela na jacuzzi que Natália mandou instalar. Isso não se faz. Mas eu fiz. Se eu fosse outro estaria profundamente arrependido; eu quero me arrepender, mas não consigo, como não consigo achar a porra do brinco! Minha esperança é que tenha caído no ralo, ou quem vai escorrer pelo ralo é o meu casamento feliz de oito anos, um casal de crianças lindas, um lar harmonioso e uma esposa que é um tesão, uma fera na cama, a melhor trepada do mundo, criativa, bem-humorada, inteligente, uma mulher de parar o trânsito, na flor dos seus 27 anos; e eu, cretino, trepando dentro de casa com uma loura burra – mas gostosa, reconheço – que não sabe nem onde põe os brincos. Talvez minha Ná já esteja no parque Villa Lobos, que é perto daqui. Deixa eu colocar o telefone de novo na tomada. Pronto. Ouvi um latido. Pronto. Adeus, mundo cruel. O telefone e a campainha tocaram ao mesmo tempo. “Alô”. Tenho que abrir. Seja o que Deus quiser.
“Pedro?”- a voz macia – “Tem mais de duas horas que estou ligando praí e só dá ocupado. Ó , não precisa se preocupar, achei o brinco. Estava na bolsa.” Desliguei e corri para a porta. Natália abriu o seu sorriso maravilhoso de 32 dentes perfeitos. Tive uma ereção
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Thomaz de Molina (Batata)

2 comentários:

Ferréz disse...

muito bom o blog, passei por aqui e vou vortar, pode esperar, salve

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