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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

domingo, 8 de novembro de 2009

As laranjas podres e o plágio do jornalismo

O jornalismo brasileiro termina mais uma semana exemplar para a reflexão sobre aquilo que não se deve fazer. Como o jogo só acaba quando termina, correm até agora dois casos notórios de um tempo de pouca reflexão, quase nenhuma ação e muita cópia.
O primeiro caso da semana vem dos jornalões, que cometeram plágio em uma matéria sobre... plágio. Não poderia ter sido mais irônico. Diz a boa prática do jornalismo que se deve “dar o crédito” a quem tenha dado em primeira mão - o chamado furo - uma informação, relevante ou que se julgue relevante.
A Associação dos Docentes da USP (Adusp) manifestou em seu Informativo Adusp 296, páginas 3 e 4, a acusação de plágio em um artigo envolvendo a reitora da universidade, Suely Vilela. Diga-se de passagem que, apesar dos pesares, a principal acusação que pode recair sobre a reitora é de descuido. Ela co-assina um artigo feito por uma aluna de doutorado. Incentivada pela produtivismo que ela mesma tratou de dar corda, o mais provável é que a reitora tenha assinado o artigo para dar conta das elevadas metas anuais que devem ser cumpridas por docentes de universidades públicas – qualquer semelhança com banco ou telemarketing não é mera coincidência.
Eis que, na quarta-feira (4), Folha, Estado e O Globo encarregaram-se de reproduzir a denúncia. Nenhum deles tratou de dar o devido crédito à Adusp que, antes de mais nada, fez bom trabalho jornalístico: buscou ouvir todos os envolvidos e conseguiu apurar que o caso é investigado internamente na USP. Uma reclamação sobre o plágio foi encaminhada ao ombudsman da Folha que nada escreveu neste domingo (8). Se alguém quiser saber mais, deve ir ao site da Adusp, porque não serei eu o próximo a plagiar.

Cutrale devolve terras griladas
Num gesto único na história brasileira, a Cutrale vai devolver as terras públicas que grilou para plantar laranja. Segundo uma pessoa que ocupa cargo decisivo, "mais importante que sete mil pés de laranja derrubados, são as cem mil famílias de brasileiros que estão na beira das estradas". O único condicionante da empresa é que as terras sejam destinadas à reforma agrária, dando preferência às famílias que ocuparam o lugar dias atrás.

Esse é o primeiro parágrafo da história contada por Roberto Malvezzi no Correio da Cidadania em 29 de outubro. Achou estranho? Teve gente que não. A notícia rapidamente foi reproduzida em páginas e blogues de toda a internet. Caiu na rede é peixe, companheiro, e há muito pescador precisando de caça. Em um dos blogues, O Correio da Elite, o autor até tomou o cuidado de advertir com um sincero “Uai, será verdade?”, mas não tomou o cuidado básico de não publicar.
Coube a Malvezzi, dias depois, esclarecer que se tratava de ironia seu texto: “Quem já viu grileiro devolver terras, respeitar sem terra, reconhecer os problemas históricos dos índios etc.? Então, afirmo que o texto "Cutrale devolve terras griladas" é uma ficção e não podia ser outra coisa, tamanho o absurdo do conteúdo”. Da próxima vez, talvez seja melhor usar um (I!) de ironia para afastar do texto os inconsequentes.
Como bem lembra o amigo Thiago Domenici, criador deste blogue, perdeu-se a função mais básica do jornalismo, que é a apuração. Os erros desta semana revelam um jornalismo torpemente afoito em publicar tudo que lhe apareça. Não se nota que, em meio a tanto conteúdo despejado sobre a cabeça, o leitor nada assimila, tudo se torna etéreo e inútil. A pressa, inimiga da perfeição, é chegada da inconseqüência.
É o que permite que a GloboNews derrube um avião da Pantanal sobre um prédio em São Paulo, seja seguida por todas as outras rádios, TVs e sites, e depois diga que se tratou tão somente de uma loja de colchões em chamas e que ninguém saiu nem com arranhões. Bem, quase ninguém: imagine quem tinha parentes voando em aeronave da Pantanal naquele momento.
A discussão poderia ser estendida por muitos outros parágrafos, mas devo parar por aqui sob risco de que ninguém chegue ao fim da leitura. Só gostaria de lembrar que parece ter passado em branco a visita de Gay Talese ao país. Jornalista dos melhores, texto refinado, Talese cisma em ter calma para escrever e não consegue entender a cabeça de editores afoitos por dar antes de todos uma informação que em menos de 15 minutos estará diluída e perdida. Não sei onde pode parar essa teimosia (I!).

João Peres é jornalista e mantém neste blogue Rodapé a coluna Extremo Ocidente.

2 comentários:

Humberto Capellari disse...

Oi, João.
Eu sou o autor do Correio da Elite [ e leitor freqüente da Revista do Brasil rsrsr ], e caí aqui por acaso. Concordo plenamente contigo. Às vezes a pressa em publicar alguma coisa no blog acaba, mesmo, sendo um revés.
No caso específico que você menciona, eu fiquei - mesmo -encafifado. Mas, em meio àquela febre "Lincha o MST, prisão, etc JÁ!", mesmo sem a comprovação da suposta "devolução", julguei que o melhor seria - feita uma brevíssima ressalva pela incerteza - divulgar a [ viemos saber depois, fictícia ] informação, temendo que talvez [ se fosse verdade, claro ], a depender da imprensa grande, tal informação fosse sonegada aos leitores. Depois, já sabedor que a ficção fora revelada, postei o desmentido, de autoria do próprio autor: http://ocorreiodaelite.blogspot.com/2009/11/cutrale-nao-devolveu-terra-nenhuma.html
Não sei se isso conserta algum mal que, porventura, eu tenha causado.
De qualquer modo, vou procurar ter um zelo maior.
Abraços, e considerem-me seu seguidor no Twitter

João disse...

Meu caro, que bom que serviu para reflexão o texto. Na verdade, é o tipo de erros a que todos estamos cada vez mais sujeitos nestes tempos de correria. Tomara que consigamos todos fazer esse tipo de reprodução cada vez mais raro. Grande abraço

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