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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Atitude

Você diz isto porque é branca, loura e paulista. Foi o que ouvi da amiga militante dos movimentos negros quando conversávamos sobre a minha trajetória profissional peculiar. Isto porque, apesar de não ter terminado o ensino médio, sempre trabalhei em bons empregos, bem remunerados. E eu estava dizendo a ela que a educação formal faz falta, sim, mas há maneiras de driblá-la, é só uma questão de investimento na formação pessoal e muito trabalho.

Mas ela tem razão. É preciso mais do que isso: tem que pelo menos saber se expressar na conversa e na escrita e ter atitude, algo sempre visto com naturalidade nos brancos. Pessoas negras “com atitude” ainda são um grande incômodo pra muita gente.

Sempre estudei em escola pública, desde o jardim de infância até o colegial inconcluso. Lá atrás, nos anos sessenta, tive vários colegas negros no jardim e no primário. Conforme íamos sendo aprovados, eles iam desaparecendo das classes. Uns porque não passavam de ano e desistiam da escola, outros porque tinham que trabalhar, geralmente os meninos na roça e as meninas em casa – na sua ou na dos outros. De qualquer maneira, eram negros e não se esperava nada deles além de mão de obra braçal. Aliás, sua permanência na escola era claramente desestimulada, pois seriam mais úteis fora dela.

As meninas negras não brincavam no recreio. Ficavam sentadas nos bancos do pátio olhando a brincadeira e cuidando dos agasalhos das colegas brancas que suavam na correria. Tudo muito “natural”. Como é que alguma delas poderia aprender a se lançar no mercado de trabalho como secretária bilíngue, como eu fiz aos dezoito anos? Com um inglês bem mambembe, mas com boa conversa, boa escrita e muita determinação. A tal “atitude”.

A partir da extinção da escravatura (da qual tenho uma vergonha ancestral profunda e irreparável), não foi necessária uma política formal de segregação ou exclusão dos negros no Brasil. A estrutura social e o descaso oficial foram suficientemente eficazes para mantê-los alijados dos meios de ascensão. E não pretendo me alongar sobre isto, há gente muito mais capacitada que eu discutindo o assunto. Isto sem falar na tragédia indígena.

O que eu preciso dizer é que não vejo um caminho de superar a discriminação que dispense a educação, e que pra que haja alguma reparação das terríveis injustiças do passado, as cotas para acesso de negros e negras às universidades têm um papel essencial a cumprir. Nos últimos anos, conheci várias jovens profissionais que usaram das cotas para chegar aos cursos superiores. São pessoas brilhantes, com uma energia, uma competência e uma garra muitas vezes já esquecidas pela juventude branca de classe média (os “branquinhos de shopping”, como diz a minha filha), que desde sempre teve sua cota garantida nas universidades e nas carreiras. A juventude negra geralmente teve não só escolas ruins, como também famílias com nível de instrução muito baixo, enquanto na minha casa fomos “adestrados” desde cedo. Hoje me divirto lembrando que, com nossa mãe professora, todos tínhamos que nos expressar corretamente, e ai de quem usasse uma crase errada ou tropeçasse na concordância.

Todos sabemos que há muito o que fazer pela educação no Brasil, se queremos preservar e consolidar as conquistas dos últimos anos. Nossas deficiências são muitas e profundas, mas nada que não possa ser superado com investimento, planejamento, seriedade e boa gestão. Mas não chegaremos a lugar nenhum se não formos capazes de trazer todo mundo junto. É a nossa chance de sermos um país desenvolvido de verdade. Com muita atitude.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR.

13 comentários:

Fernanda Pompeu disse...

Ganhei o dia. Comecei lendo um texto cheio de coragem. Parabéns, Júnia!

Carlos Augusto Medeiros disse...

Pois é, Júnia, ruim com, pior sem. O difícil é que a segregação oculta para uns, realidade para outros, manifesta-se (para a surpresa de muitos) nos dados oficiais: piores salários; mais analfabetos; piores empregos etc. Excelente texto, excelente inspiração.

Anônimo disse...

Junia querida, sua crônica de hoje relata bem seu ponto de vista. Conheço como você respeita o esforço do ser humano,seja branco,negro, índio,de qualquer classe social. Parabéns pela exposição e posição claras sobre assunto tão atual. Sua atitude diante da vida só me enche de orgulho.
beijos da Mummy Dircim

leila disse...

Lendo o texto,vejo-a menina cheia questionamentos e sonhos, discutindo questões sociais como gente grande.
Adulta, segues na mesma direção. Traçaste uma linda trajetória e Mummy Dircim tem toda a razão de se orgulhar da tua atitude diante da vida.Parabéns! O texto escancara a beleza da tua alma! beijos da amiga distante...

Norma disse...

Texto valiente y fuerte, excelente reencuentro para mi con la columna de Junia después de muchos viernes de viajes y correrías
Muchas gracias y abrazo!

Anônimo disse...

Junia P, adorei o texto. Atitude depende de tantos fatores...Depende de personalidade + estímulo familiar e social à manifestação seus pensamentos e sentimentos + expectativa social de determinados comportamentos. Mesmo com todos os problemas que ainda temos, a situação hoje é melhor que a do passado, o que me leva a ter esperança em um futuro mais igualitário e humano. Beijos, Myriam

coresentrenos disse...

O texto é inquientante.
Lembranças e vergonha aparecem na memória de infância.
Grata por sua facilidade de escrita e a capacidade de dividir conosco.
bjos,
Soraya

Anônimo disse...

junia linda. As vezes deixamos de escrever coisas porque parecem óbvias...é um erro! Tenho certeza que
muitas pessoas são literalmente "despertadas" por
reflexões como as que voce faz,a partir de sua vida e experiência. A melhor coisa a fazer quando atingimos a maturidade da vida é saber colocar tão bem essas questões e aproveitando todas as oportunidades. Bravo!!!

Erick disse...

Olá Júnia, que lindo texto. Eu também vejo a educação como o caminho para superar a descriminação e, além disto, fazer muito mais pelo povo brasileiro. Só fico com um pé atrás com relação a sua opinião sobre cotas pois, apesar de ser uma coisa boa aos de muita gente, vejo isto como uma tentativa do governo de tentar compensar o péssimo ensino básico que temos com vagas nas faculdades/universidades.

Tudibão!

Cristina Ávila disse...

Muito bom. Parabens Júnia, parabéns Thiago! (alias, as fotos de abre são sempre cheias de intenções. curto-as)

Anônimo disse...

Júnia querida, só agora consigo te ler e estava precisando mesmo. Este fim de semana escutei varias bobagens, uma delas justamente sobre as quotas para negros e negras, e juro que falei "Cadé a Júnia? Estou com tanta saudade dela." Suas palavras na nota de rodapé matarem essa saudade. Obrigada!
Susana

Anônimo disse...

Bacana, Cristina. Gosto muito de escolher as fotos de abertura, são uma diversão. E, com razão, cheia de intenções. Abs, Thiago Domenici

Anônimo disse...

Sim, o Thiago é certeiro nas fotos e ilustrações. Muito legal. Júnia.

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