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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 30 de março de 2012

Incerteza

Um senhor de setenta e poucos anos, pequeno e magro. Tímido, naturalmente amável, sorriso fácil. Dirigente patronal e anfitrião de um evento de que participei no Rio, há uns cinco anos.

Era o lançamento de uma pesquisa sobre diversidade nas empresas. O evento em si era corriqueiro, nada especial. Eu participava da mesa principal, representando minha instituição.

O dono da casa foi convidado a falar. Começou contando-nos sobre a infância dura na Polônia, filho de operários judeus, e como foi desembarcar no Rio na década de quarenta.

Era como se estivéssemos chegando a outro planeta, disse. Como éramos pobres e judeus, fomos morar no centro da cidade, e os meus amigos eram os filhos de imigrantes e os negros.

A vida lhe ofereceu um prato cheio da tal diversidade, que não lhe passou nada despercebida. Pelo contrário, abriu-lhe os olhos para muitas coisas que depois lhe seriam importantes, quando cresceu e prosperou como industrial.

Com sua fala mansa e muito articulada, foi me revelando ali uma pessoa “habitada”. Um respeitável senhor idoso, que, ao longo da vida, juntou a vivência com uma reflexão primorosa sobre o que viveu e as pessoas que conheceu. Falou da sua convivência com os outros empresários e dirigentes, uma gente que acha que sabe tudo, sabe e tem certeza. Fui me deixando levar, maravilhada.

Foram quinze minutos, no máximo, que ele encerrou assim: “a essa altura da vida, o que quero mesmo é ter cada vez menos certezas”. Tive vontade de levá-lo pra casa (pra fazer par com a lambreta amarela que ainda terei – e que agora tem o nome pedante de “scooter”).

Como já disse, isso foi há alguns anos, mas de vez em quando me volta à lembrança, como nessa madrugada insone, e sempre me traz uma sensação boa de que tem gente que descobre coisas incríveis. Por exemplo, que quando precisamos ter certeza, geralmente é pra nos distrair e nos enganar.

Júnia Puglia, cronista, escreve todas às sextas a coluna De um tudo no NR.

7 comentários:

fernandapompeu disse...

Bom demais!

Anônimo disse...

Gostosamente socrático! Muito bom para uma sexta. Há tanto a aprender! Bj, Olga Ronchi

Anônimo disse...

Gente assim é uma inspiração para nossas vidas, vividas entre tantos deuses incontestáveis! FF

leila disse...

fantásticas essas reflexões e memórias, mas escrevê-las com graça, ísso já é uma questão de dom natural... Júnia, você é brilhante! bjus

Anônimo disse...

Certeza de quê ? isso é assunto para sábios e pedantes. Suas palavras caem em cheio sobre as cabeças de certas "autoridades pensantes",donas da verdade mas não do próprio umbigo.Parabéns, filhona.
Mummy Dircim

Shirley disse...

Querida, me identifico muito com o senhor que vc relata. Como ele, também vivi num meio diverso e pobre e sinto que soube trazer de lá muita generosidade e humildade, mas também muita sabedoria de vida, aquela que não se aprende nas escolas (até pode, mas nos corredores, banheiros e quadras). A diversidade e a aceitação das diferenças é meu maior ganho. Certezas? Nenhumas... Nem quero, também desejo discertezar as coisas; é um exercício bom, tornar suas certezas em discertezas, tenho tentado bastante. Um beijo grande na sua nova vida literata e a toa!

coresentrenos disse...

O que seria a minha vida, a sua vida e as nossas vidas sem a angústia da incertezas?! A sabedoria mora nesse espaço de não certeza e a vezes de grande dúvida.
Uma certeza eu tenho. Gosto muito de te ler.
bjos,
Soraya

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