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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Tela paulistana

Não costumo me hospedar nas casas das pessoas. Tenho verdadeiro pânico de importunar, de invadir, de ser inconveniente, o que nem sempre é compreendido. Além disto, depois de muitos anos viajando intensivamente a trabalho, a privacidade dos hotéis passou a ser tão natural pra mim quanto as agendas loucas que eu tinha que cumprir. Natural e necessária, pois o quarto de hotel era meu momento de solidão, de me desconectar do trabalho e das pessoas com quem tinha que conviver do lado de fora, essencial para me renovar e encarar o dia seguinte.

Há exceções, quando sinto que existe intimidade suficiente e que a minha presença não vai alterar tanto a vida de quem mora na casa – o que nem sempre consigo medir, mas então procuro dar mais espaço para o afeto e a amizade. Então, tenho algumas casas por aí, onde me sinto confortável e relaxada e me permito estar uns dias, desde que não passe de uma semana, porque aí já me parece um abuso insuportável.

Uma delas fica no sétimo andar de um edifício na Avenida Paulista, onde o piso vibra com a passagem constante dos trens do metrô e o rugido do trânsito ocupa todo o espaço, enquanto aquele mundo de gente que viaja ou caminha incessantemente vai compondo a crônica urbana mais alucinada que se possa pensar.

Olhando daqui de cima, o céu parece resignado, talvez até mesmo satisfeito, por abrigar este excesso de tudo que é São Paulo. Penso em subir na janela e de mansinho sair voando baixo, vendo de cima o interminável mosaico dos edifícios, casas, ruas, gentes, veículos, aqui e ali um pouquinho de terra e algumas árvores, uns passarinhos, helicópteros, aviões, e concluir que tudo poderia ser ao contrário, pois daria no mesmo avesso do avesso do avesso do avesso.

Fico querendo. Impede-me de alçar voo uma tela de trama miúda, à prova dos dois felinos moradores do apartamento. Sem opção, aceno para os alunos da sala de aula no edifício ao lado e vou dormir, não sem antes tapar muito bem os olhos e os ouvidos.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto

2 comentários:

Anônimo disse...

EM SAMPA TUDO É EXAGERADO.O BOM E O MAL, O LINDO E O HORROROSO, O FASCINANTE E O VERGONHOSO ,O CANTO DE UM PÁSSARO NA MULTIDÃO , OS BECOS IMUNDOS DE ALGUNS LUGARES E O BRILHO DAS LUZES DO LUXO.TUDO É GRANDE, INCLUSIVE E, FELIZMENTE, A ALMA DO PAULISTANO ARRAIGADO ÀS
SUAS ORIGENS.FALO DOS HOMENS E MULHERES QUE SOUBERAM ,COM ESFORÇO E TRABALHO INIGUALÁVEIS,CONSTRUIR UMA CIDADE TÃO ÚNICA,TÃO CHEIA DE CONTRASTES ,IMPOSSÍVEL DE SER IMITADA.
VIVA MINHA SÃO PAULO,MESMO SEM A GAROA QUE JÁ DESAPARECEU.

leila disse...

Como sempre, amei a leitura gostosa! São Paulo é tudo isso e mais um pouco. Parabéns pra ela e beijos pra ti, Júnia!

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