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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O samba da nossa terra


por André Carvalho   ilustração de Kelvin Koubik


Acontece que ele era baiano. Da Bahia, da praia de Itapuã, de Maracangalha, da lagoa escura do Abaeté, da ladeira do Bonfim, dos balangandãs e do samba que quando se canta todo mundo bole. Dorival Caymmi, que, a despeito do grande talento com tintas e pincéis – era um exímio pintor –, entrou para história da cultura brasileira como um dos mais geniais compositores do século XX. Criador de uma obra única, sem antecedentes nem sucessores, cantou, tocou – com seu violão – e registou, para a eternidade, o cancioneiro da Bahia.

Suas músicas são atemporais. Verdadeiras pérolas, que parecem brotadas da terra, ou trazidas à terra pelo sopro dos ventos que conduzem as embarcações no mar. Expressões divinas, lapidadas pela paciência dolente de um ourives das melodias e palavras, porta-voz de um lugar, uma época, um viver, que só a Bahia tem.

Caymmi observava a vida pelas janelas, tinha a sensibilidade para criar, sem pressa, em forma de música, cenas cotidianas que o cativavam – e compunha letra e melodia, de uma vez, sem necessidade do acompanhamento do violão. Demorava anos, às vezes décadas, para terminar as composições. Quando deixou a Bahia, e se mudou para o Rio de Janeiro, levou um caderno cheio de músicas iniciadas, que foram concluídas sob o sopro de outros mares, das águas da Guanabara.

Tinha por convicção que a verdadeira música popular era aquela feita para os garis, os pedreiros, as lavadeiras e os pescadores cantarem. Seu sonho era criar canções que se incorporassem ao imaginário, ao folclore popular dos brasileiros. Considerando que a expressão “quem não gosta de samba, bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé” virou ditado popular, e que suas canções praieiras se incorporam ao cancioneiro do povo brasileiro, pode se dizer que Caymmi alcançou seu objetivo.

Além das canções praieiras, que distinguem o compositor de todos os outros criadores de melodias e versos da história da música popular brasileira, a obra caymmiana possui outras três vertentes: os temas baseados no folclore, os sambas “sacudidos, corridinhos, mexidinhos” (como ele os definia)  – influenciados pelo samba de roda local –, e os sambas-canções, urbanos, cariocas.

Suas influências são os sons que vinham das ruas soteropolitanas, a nascente música popular – que tinha em Sinhô, nos anos 20, seu máximo expoente –, além de compositores como Debussy, Fauré, Mozart, Bach e Gershwin. Atento às expressões do folclore, nutriu-se também da literatura de Drummond, Neruda, Bandeira e daquele que viria a ser um de seus grandes amigos, Jorge Amado.

grandes amigos: Jorge Amado e Caymmi
Desse balaio de influências e vivências, o que o marcou, de forma indelével, foi o mar. De fato, em sua obra, são muito celebradas as canções praieiras, clássicos absolutos de nossa música. Composições como ”O mar”, “É doce morrer no mar”, “Quem vem pra beira do mar”, “A jangada voltou só” e “Saudade de Itapoã” são sempre lembradas quando falamos de Caymmi. Seus sambas, no entanto, merecem uma análise à parte. Influenciados pelo samba de roda, vertente baiana do gênero que se espalhou pelo Brasil e ganhou cores particulares em cada pedaço de nosso país, Caymmi criou um samba só dele. Sacudido. Corridinho. Mexidinho.

“Quando se canta,
todo mundo bole”


Dorival Caymmi brinca com as palavras, encaixando-as nas melodias de forma buliçosa, dando um andamento “corridinho” aos sambas que fez. “Quando você se requebrar, caia por cima de mim, caia por cima de mim, caia por cima de mim”. Diferente do uso constante da síncope, que caracteriza o samba carioca, o samba baiano, que o compositor se nutriu, é o samba de mote e glosa, com estribilhos fortes, que pedem resposta do côro. “Lá tem vatapá. Então vá! Lá tem caruru. Então vá! Lá tem munguzá. Então vá! Se quiser sambar. Então vá!”

Quando chegou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 1938, Caymmi já havia desenvolvido muitos de seus sambas. Chegou para fazer história, ingressando, com destaque, na Era de Ouro da música brasileira, iniciada em 1929 e que perduraria até 1945. Trouxe, de Salvador, um violão embrulhado, escondido – não queria se passar por malandro (naquela época, era crime de vadiagem tocar violão pelas calçadas da então Capital Federal).

Mas, em seu quarto de pensão, primeiro lar em terras cariocas, longe de tudo e de todos, seguia criando melodias. Fazia seus acordes dissonantes, que gostava de criar, com os sons que, segundo ele, lembravam os toques de berimbau das ruas da Bahia de São Salvador. Não demoraria muito, entretanto, para entrar no meio artístico. E a entrada não poderia ter sido melhor: com o sucesso estrondoso de “O que é que a baiana tem?”, que ganhou o Brasil (e depois, os Estados Unidos) na voz de Carmen Miranda. Um detalhe importante: a partir daí, Carmen não abandonaria mais os balangandãs, o torço de seda, os brincos de ouro, o pano da Costa, a saia engomada e as sandálias enfeitadas.

Cantando suas próprias canções, originais na estética e no conteúdo, e dispensando orquestras e conjuntos regionais, valendo-se apenas de seu violão, o compositor baiano seguia criando, sem pressa e com a paciência que sempre o acompanhou, novas peças. Muitos sambas “sacudidos” vieram, quase sempre lembrando – na letra – o requebrar, o balançar, o remelexo, o bolir das baianas, que seguiam presentes em seu imaginário. Do requebrado da nega, da baiana, da moreninha da sandália do pompom grená, surgiram clássicos. Este requebrar, presente nas letras, também são sentidos nas melodias “corridinhas”.

“É no mexido, é no descanso, é no balanço
É no jeitinho requebrado que essa nega tem
Que todo mundo fica enfeitiçado
E atrás do dengo dessa nega todo mundo vem”
(O dengo que a nega tem) 
“Quando você se requebrar caia por cima de mim”
(O que é que a baiana tem)
“Acontece que eu sou baiano, acontece que ela não é
Mas, tem um requebrado pro lado
Minha Nossa Senhora
Meu Senhor São José
Tem um requebrado pro lado
Minha Nossa Senhora
E ninguém sabe o que é”
(Acontece que eu sou baiano)
“Requebre que eu dou um doce
Requebre que eu quero ver
Requebre, meu bem, que eu trouxe
Um chinelo pra você, ai
Pra você requebrar
Moreninha da sandália do pompom grená”
(Requebre que eu dou um doce)

Mexer as cadeiras, bolir, sambar. Quem escuta os sambas de Caymmi, não consegue ficar parado.

"Ela mexe com as cadeiras pra cá
Ela mexe com as cadeiras pra lá
Ele mexe com o juízo

Do homem que vai trabalhar"
(A vizinha do lado)

“Samba da minha terra deixa a gente mole
Quando se canta todo mundo bole
Quando se canta todo mundo bole”
(O samba da minha terra)

“Não vou porque não posso resistir à tentação
Se ela sambar, eu vou sofrer
Esse diabo sambando é mais mulher
E se eu deixar ela faz o que bem quer”
(Lá vem a baiana)

Há, ainda, outras páginas de ouro do livro do samba brasileiro escritos pelas mãos do genial compositor baiano, como “O vestido de bolero”, “Maracangalha”, “Vatapá”, “365 igrejas”, “Eu não tenho onde morar” e “Você já foi a Bahia?”

Caymmi é mar, areia, vento e embarcações. É Itapuã, Maracangalha, Bonfim e Abaeté. É Bahia. Caymmi é folclore brasileiro. É Copacabana. É violão. É Rio de janeiro. É Brasil. Caymmi também é samba. Sacudido, corridinho e mexidinho. Samba da nossa terra.

Escute os sambas de Caymmi:

 


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André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre

2 comentários:

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marília Pereira de Carvalho disse...

Salve Dorival Caymmi! Belo texto André, parabéns.

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