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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Os que ficam


por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

“Comemore-se muito”, digo com frequência aos aniversariantes. É a maneira que encontrei de expressar meu desejo de que a pessoa de fato sinta a celebração, mesmo que esta não seja das mais exuberantes. Afinal, já sabemos todos, viver é uma tarefa bem complexa.

Isto me faz lembrar uma conhecida cronista, que, em suas memórias, relata seu inusitado aniversário de setenta anos, comemorado em total e intencional solidão, com uma taça de champanhe e uma plenitude arrasadora. É preciso muita competência para viver plenamente, em qualquer idade. Sabedoria é essencial, com um pouco de sorte e um tanto de oportunidades bem aproveitadas. Mas longe de mim formular receitas, quem dera eu as tivesse para mim mesma.

Alguns anos atrás, eu estava em Montevidéu, no inverno. Num dia de folga, e sem poder zanzar pela cidade devido ao frio danado e à chuva incessante, entrei numa livraria próxima ao hotel e comprei um livro, de forma quase aleatória. Jogada numa poltrona e enrolada num cobertor, passei horas de intenso prazer, lendo e pensando na vida, até que uma citação do poeta argentino Antonio Porchia pulou do papel: “só envelhecem os anos que ficam conosco e não os que passam”. Naquela mesma noite, amigos queridos me levaram a um sarau de poesia, num daqueles incríveis bares montevideanos que fazem a gente se sentir em 1950. Esse dia ficou aqui, envelhecendo comigo, junto com outros de diferentes naipes.

Acabei formulando uma versão personalizada da reflexão de Porchia, porque cheguei à conclusão de que só me interessam os anos que ficam, não os que passam. Todos os dias, o espelho me fala dos que passam, e o coração, dos que ficam. Os que passam, levam consigo sua porção de energia, agilidade física, memória (vai pra onde, caramba?), frescor, certezas, ressentimentos, dores diversas, e os que ficam me devolvem um pouco de tudo isto, misturado com serenidade, maturidade, ironia e uma crescente disposição para rir de mim mesma e das minhas tolices. E cada dia que passa, me levo menos a sério.


* Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto 

5 comentários:

Anônimo disse...

Os anos que passam....E como passam depressa. Gosto de alguns anos que já se foram há muito tempo, de outros mais recentes .Eles se vão, as marcas ficam. Viver só os que ficam, só os que nos trazem boas lembranças é uma tentativa de renovação, sem dúvida,mas o coração "tem razões que a razão desconhece".
Beijos da Mummy Dircim

Fernanda Pompeu disse...

Texto de mestra, Júnia!

disse...

JU, TE AMO MAIS HJ, DEPOIS DE SER TOCADA FUNDAMENTE POR SUA SENSIBILIDADE! OBRIGADA!

Shirley disse...

Que boa coincidência. Estava refletindo hoje de manhã mesmo sobre um pouco de tudo isso. Detesto essa reclamação tão comum de que envelhecer é uma droga, que o corpo fica todo estragado, que a gente começa a ter coisas que nunca teve etc. Acho um saco quando começam com essa lenga lenga... Simplesmente porque a outra opção é morrer! Acho que a decrepitude do corpo ocorre com mais frequencia naquel@s que se permitem envelhecer o coração e a cabeça. Quem busca a renovação, quem ri de si mesma (ai como isso é bom!), quem reconhece a maturidade como uma coisa boa de viver, não sente a velhice como uma fase ruim. É apenas uma fase diferente, totalmente possível e inesperada, se assim se quiser. Comemore-se é ótimo! Que venham muitos anos pra gente se comemorar!
Beijos, querida.

Montanhas, mares e culturas disse...

Valeu Junia!"só envelhecem os anos que ficam conosco e não os que passam”. Gostei!

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