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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Impropriedades

por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Qualquer pessoa que tenha um lugar de moradia para chamar de seu sabe como é: a quantidade de tralha com que entupimos nossas casas é chocante. A gente meio que finge que não vê, mas, cada vez que temos que fazer mudança e somos obrigados a encarar a realidade, constatamos, resignados, nossa capacidade de acumular coisas, independentemente da utilidade ou aplicabilidade dos trens empilhados e empaçocados em armários, estantes, gavetas ou qualquer fresta por onde passe mais que uma folha de papel. Somos acumuladores contumazes, inclusive de coisas que, se algum dia tiveram um papel a cumprir na nossa vida, como revistas, livros e CDs, atualmente desfrutam de um empoeirado sono eterno. Fora badulaques de tudo que é jeito. E um detalhe importante é que esta questão independe da metragem de que dispomos. Em quase todas as casas, por menores e mais modestas que sejam, há tralha suficiente para ocupar outra área equivalente.

O fato é que gostamos da ideia de ter, não só coisas, objetos, mas também pessoas e memórias. Ou seja, o sentimento de posse se estende àqueles por quem temos afeto e às lembranças daquilo que valorizamos na nossa experiência de vida. Daí a quantidade de fotos das pessoas queridas e dos lugares e situações que cultivamos na memória afetiva e gostamos de ter por perto, numa interminável reedição dos sentimentos que significam, mesmo guardadas em caixas ou computadores, e jamais organizadas.

Diz o dito popular, sábio como sempre, que caixão não tem gaveta. Tudo o que tiver sido importante para nós durante a nossa trajetória de vida vai ficar aqui quando já não estivermos. O máximo que levaremos conosco são as roupas que cobrirão a nudez em que todos aqui desembarcamos. Nem mesmo as pessoas que amamos poderão nos acompanhar na derradeira viagem. Já sabemos, mas não custa lembrar.

É bem por isto que tenho pensado muito em desencanar das tranqueiras, eventualmente me desfazer delas, e me dedicar a correr atrás de impropriedades, não na forma como as definem os dicionários (ou talvez sim, em certa medida), mas na maneira de ter e tratar as pessoas e coisas que me cercam e compõem o meu patrimônio imaterial. A propósito, esta expressão é um achado precioso, uma bela ideia, ao juntar duas saborosas palavras, que tinham tudo para ser inconciliáveis. Aliás, as palavras, paus para toda obra, pedregulhos e diamantes ao mesmo tempo, proporcionam fartas colheitas imateriais de bonitezas e feiúras para todos os gostos.

Os assuntos já se misturaram, mas eu estou gostando muito desse rumo e dessa prosa.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

2 comentários:

Anônimo disse...

Memórias no coração, no íntimo e no cérebro....ah!como as tenho. Relíquias preciosas que se misturam às gotas do dia-a-dia.
Bjs da Mummy Dircim

Montanhas, mares e culturas disse...

É verdade, Junia! Quantas tralhas juntamos e, pasme, não só as materiais! A melhor saída para essas tralhas materiais e sentimentais que juntamos é o discernimento para joggar fora o que não nos interessa e não faz mais falta!

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