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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Meninas roubadas


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Daqui deste meu canto com vista para os ipês amarelos floridos do quintal do vizinho, é fácil pensar nelas e mergulhar na inquietação que vem junto. As meninas roubadas na essência daquilo que a vida requer para ser uma vida bem básica. De seres humanos com potencial pleno, como quase todas nascemos, foram transformadas em coisas, peças dos terríveis jogos que tantos homens jogam para perpetuar sua superioridade, exigência maldita imposta a tantas mulheres, que não conseguimos conter, que dirá reverter.

Quando nasci um anjo esbelto, /desses que tocam trombeta, anunciou: /vai carregar bandeira. /Cargo muito pesado pra mulher, /esta espécie ainda envergonhada, disse Adélia Prado no definitivo poema "Com licença poética”.

Meninas nigerianas, que cometeram dois equívocos essenciais: nascer mulher e ir à escola. Tragadas pelo jogo de vida e morte, ou morte em vida, ditado pelos senhores ensandecidos que o vêm herdando desde sempre, e sempre acrescentando novos ingredientes de horror, que parece jamais bastar.

Fácil pensar nelas e nas muitas outras usadas e abusadas nos conflitos e nas guerras, entre países ou facções criminosas, por guerreiros brutos e mal encarados ou por moços branquinhos limpinhos encarregados de protegê-las. As mulheres não fazem as guerras, mas as sofrem profundamente, mesmo sem dar um único passo neste sentido. As guerras dos homens sempre as alcançam.

Foram resgatadas do cativeiro extremista, as meninas nigerianas, depois de ver e sofrer o inominável. Das centenas que sobreviveram ao quinto ou sétimo inferno, mais de duzentas estão grávidas, como resultado da violência sexual a que foram submetidas, no seu papel obrigatório e inescapável de trastes disponíveis aos tais jogos. Voltam com filhos da tragédia no ventre ou nos braços, perdidas, esvaziadas de si mesmas. Fácil pensar nelas, mas, por mais que eu me esforce, não faço ideia de como se sentem.

* * * * * *

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

4 comentários:

Anônimo disse...

Triste realidade : nascer mulher e ir à escola!!!! Em que século estamos ? Por que essa crueldade satânica em relação àquelas que nos dão vida ? Que vida, aliás,suportam essas desgraçadas meninas ? Oh! Deus, tem piedade !
Bjs da Mummy, no dia das Mães.

disse...

Chorei!

Anônimo disse...

UI!!! É uma ferida aberta que sangra sem parar dentro da gente essa história lá de longe, mas que sabemos acontece por aqui também... Pobres meninas. Que atrocidades ainda precisam viver, sem uma voz a representá-las ou defendê-las? Meu Deus! Onde chegaremos? Nos sentimos tão, mas tão impotentes diante de tragédias como essa!
Parabéns pela escrita, guria!

Montanhas, mares e culturas disse...

Falou e disse!

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