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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Conversa dentro


por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

Do lado de cá da mesa, três coroas e uma de trinta e poucos, mais ou menos respeitáveis, casadas e supostamente comportadas. Completando o círculo da mesa, três amigas pouco entradas na quarta década, algumas vezes casadas, no momento não. No espaço entre nós, delícias árabes e uma garrafa de vinho tinto que nunca esvazia.

Uma delas informa estar noiva e exibe o anel na mão direita, dando o mote para um divertido passeio pelo mundo delas, as solteiras. Reajo supreendida: noiva? Isto ainda existe? A noiva em questão responde que já foi casada três vezes, e vai encarar a quarta. É dona de um pequeno negócio de roupas, já ralou muito, e entra a filosofar sobre relacionamentos modernos. Que os homens se assustam muito quando percebem que estão lidando com uma mulher autônoma, dona da própria vida, mas que ela gosta mesmo é de se sentir protegida, espera isto dos namorados e do atual noivo, futuro marido.

Uma outra, alta e grande, de olhos azuis claríssimos, dois ou três casamentos no currículo, conta das dificuldades com a altura e dos ficantes baixinhos que já teve. Um deles foi buscá-la num Fiat 500, coitado, e ela penando pra encaixar no banco do carro. Os grandes como ela pelo menos têm um Duster, mas nenhum deles gosta de mulher muito independente, se sentem inseguros, ameaçados, desnecessários.

A terceira comenta que o último namorado reclamava por ela não estar disponível para passar todo o fim de semana com ele. Mas como, se tenho uma filha pequena, que mora comigo? Difícil de entender, né? Ele mesmo pai de vários filhos, cada um vivendo com sua respectiva mãe, claro. Faz sentido?

As três muito dispostas a se divertir ao máximo. Talvez a grande, enorme diferença em relação às gerações anteriores. Encaram a vida, casamentos e descasamentos, filhos, trabalho duro, mas quando chega a hora da balada, estão tinindo e chegam arrasando, prontas para aproveitar tudo o que se lhes ofereça. Como as bambas Dóris, Auremília, Teresinha e Marina da canção de Ana Carolina. E sabem aonde pisam, não esperam o príncipe irromper na pista montado num cavalo branco. Quero dizer, isto penso eu.

E nós, as boas senhoras, fascinadas com a conversa, que termina numa galinhagem de abrir as várias malas de roupas trazidas pela lojista, fuçar, experimentar e dar palpites. Quando nos despedimos, alguém avisa que há uma cronista no grupo, ao que a altona me pede: pode contar, mas não ponha meu nome, por favor. Claro que não, Adriana!

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

3 comentários:

Carlos Augusto Medeiros disse...

Fala o nome.....

Cecilia Cordeiro disse...

A D O R E I !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Anônimo disse...

BOA DEMAIS ESSA! COM CERTEZA A ADRIANA GOSTOU DA TUA DISCRIÇÃOOOOOOOOOO...................BJ

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