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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A internet como prozac virtual

Em novembro passado, como parte das pesquisas e entrevistas para a reportagem “O alerta da Ciberdependência”, publicada na Revista do Brasil (leia na íntegra), conversei com o Coordenador do Projeto Dependentes da Internet do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (AMITI) do Instituto de Psiquiatria da USP, em São Paulo, Dr. Cristiano Nabuco de Abreu. O tema do vício em web e computador ainda é pouco conhecido do grande público e a entrevista abaixo esclarece alguns pontos relevantes sobre a questão.

Que tipo de dependência é essa de computador e internet?
A dependência de internet é considerada ainda um diagnóstico experimental. Surge pela primeira vez em 1996 com uma americana, Kimberly Young, que analisou o que acontecia com os jovens e adolescentes. Da amostra de 2.500 jovens ela constatou que quase 85% deles tinha tido impactos negativos na vida social e familiar por conta do uso abusivo. Depois de dois anos, ela pega esse critério e adapta critérios do uso de álcool e drogas, mais ou menos para tentar criar um paralelo, depois abandona e migra para outra classificação, similar a do jogo patológico. Vale ressaltar que o jogo patológico é uma classificação que deriva do uso de álcool e drogas, então a dependência de internet deriva de uma terceira instância dessa mesma família. Por isso que a gente chama de dependência comportamental. E quais são os critérios? São oito. Entre eles, o indivíduo que se torna monotemático e só fala de internet (MSN, Facebook, Twitter, Orkut, bate-papos etc); indivíduos que, embora percebam que estão fazendo uso abusivo dessa internet, não conseguem diminuir, ou seja, cada vez mais precisariam de tempo de exposição para ter o mesmo prazer e a mesma satisfação que tinham com menores quantidades, semelhante, por exemplo, ao álcool e as drogas ou o jogo; terceiro, questionados sobre o uso excessivo, tendem a mentir. Quando dou entrevista a pessoa pergunta se o número de horas que a pessoa passa na frente do computador conta. Não conta. Você, por exemplo, é repórter, deve passar 6 ou 7 horas por dia. Eu, no intervalo das minhas consultas, checando meus artigos e minhas pesquisas algumas horas. O que diferenciaria de uma maneira mais genérica um indivíduo dependente do não dependente é que o segundo vai pra internet, faz o que tem que fazer e volta. O dependente não, fica nela. Ele começa cronicamente precisar deste recurso para poder ter as experiências de vida. O que quer dizer? Quando o computador se torna muito atraente, a vida do indivíduo prefere realizar suas atividades através da vida virtual em vez da real. Passa a arranjar relacionamentos, lazer, muitas vezes a ganhar dinheiro através da internet, ou seja, o nível de disposição sai do mundo real para o virtual. Vale lembrar que o nosso cérebro não consegue diferenciar se você está vivendo uma situação ou se você está imaginando. Na verdade você passa, literalmente, a viver uma vida paralela. Existe todo tipo de comportamento, indivíduos que se viciam em comunicadores instantâneos, e-mail, aquele caso clássico do indivíduo que clica 20 vezes na sequencia para ver se não entra nenhum na sua caixa de entrada; sites de relacionamento etc.

Com o aumento das redes sociais teremos mais dependentes?
Com certeza é um fato. Aqui no Ocidente a gente não tem isso ainda como um problema de saúde pública, mas na Coréia, por exemplo, já é saúde pública. Lá eles aceitam a dependência de internet como válida e desenvolveram uma subdivisão, que chamam de Cyber Café Adquicion (Dependência de Cyber Café). Lá é proibido a abertura de novas lanhouses e as que existem são extremamente controladas. Na Coréia, se não me engano, são 200 milhões de usuários de internet. Aqui no Brasil são mais de 45 milhões. Como a internet surgiu lá há mais tempo é o prenuncio do que a gente vai viver aqui.

Como chegam esses casos para o senhor?
Não tenho o levantamento de quem vem espontaneamente ou é levado. O que a gente tem na verdade dentro da psiquiatria como um todo é que aquelas pessoas que estão num estado de mais gravidade são sempre levadas por alguém. Individuo quando não está tão comprometido tem a autoconsciência. Levando em conta que esses indivíduos na maior parte das vezes estão conectados a internet, uma das grandes janelas que essas pessoas têm como a gente é a através do nosso site que tem uma média de 10 a 15 pedidos de socorro.

Qual o teor desses pedidos de “socorro” que chegam?
O que mais me chama a atenção é de um menino de 8 anos que escreve. “Eu não consigo mais sair do computador. Cada vez que me distancio minha mão começa a tremer, tenho ânsia de vômito.” Termina da seguinte maneira o e-mail “Socorro. Socorro. Socorro”. Na grande parte das vezes quando a gente fala de jogo, uso abusivo de substâncias temos muito da nossa experiência, seja pessoal ou de próximos, efeitos dessa exposição. Na internet nós não temos, somos também “baby bomers” da internet. Ainda não temos o controle do que é saudável. Estamos todos reféns de uma ignorância muito grande. A gente está aprendendo a medida que o negócio cresce. Isso quer dizer o que: pega o computador e joga pela janela? Claro que não. É evidente que o problema não é o computador. É o mesmo que falar que todo barmam seria alcoólatra, não é isso.

Qual o padrão de pessoa que vai até você?
A experiência que a gente tem no ambulatório é que vão pessoas de 10 a 70 anos. Não tem faixa etária, nível socioeconômico, cultural, gênero, é geral. E o grande problema qual é? O Brasil hoje é o país líder no mundo de tempo em conexão doméstica. O brasileiro é o que mais navega. Ninguém ainda se deu conta da onda que está armando no mar. E a hora que ela estourar vai levar muita gente. São poucos ainda os centros de pesquisa, as pessoas não sabem muito. É tudo muito embrionário, então recebo e-mail do Pará, Manaus, Recife e você não tem o que fazer. Recebi um de Recife, “olha, meu filho está com 30 anos e há 15 é um dependente ativo. Nós não sabemos o que fazer, pelo amor de Deus.” Indico psicólogos na região. Eles vão tratar, mas essa experiência que a gente tem de conhecer um pouco mais a fundo te dá outro traquejo.

E o tratamento?
O tratamento é difícil porque a internet virou parte da vida das pessoas. Grande parte das instituições pedem coisas pela internet. A telefonia está migrando para internet. Estamos nos tornando “onliners”, pessoas que não se desconectam mais. Outro dia vi no restaurante duas meninas e o pai ali no celular e não interagiu com as filhas o almoço todo. Um outro aniversário de um amigo, lá pelas tantas, um cara descobre que tinha rede sem fio. A maioria das pessoas sacou seu celular e se conectou.

Onde o senhor acha que isso pode chegar?
Ainda é muito rudimentar o nosso conhecimento. O que dá pra gente sacar é que o problema é grave. Tem o fato histórico do impacto na vida pós-moderna com a internet. Ela mudou tudo. Muda não somente o aspecto da saúde, mas os usos e costumes. Por exemplo, dificilmente você vê um adolescente de 17 anos na frente de uma sala de aula comentando sua primeira relação sexual. Ninguém faz isso, se expor para tanta gente. Mas o mesmo adolescente escreve sobre o tema num blogue para quem quiser ler. O conceito de intimidade está se modificando. A forma de você existir está criando um outro contexto; é também uma revolução cultural. Acho que a vida virtual passou a ser uma nova frente de convivência, por isso existe um impacto sócio-comportamental muito interessante.

Como foi o seu primeiro caso?
Não lembro, mas vou contar um superdramático. Uma mãe chega para mim e fala: “Meu filho tem 16 anos, está há dois sem sair de casa, abandonou a escola e ele se recusa a sair de casa.” Acho que foi o terceiro ou quarto caso que peguei. A mãe explicou que era separada do marido. Pergunto quantas horas o filho fica no computador. “Uma média de 45 horas”. E nos horários que ele não está, pergunto. “O senhor não entendeu. Eu falei 45 horas.” “Eu compreendi, mas como ele se alimenta?” “O senhor não entendeu, ele se alimenta na frente do computador.” Eram 45 horas sem parar. Ele virava. Insisti. “Ele não se alimenta, mas como ele vai ao banheiro?”. “Ele fica 45 horas sem levantar. Faz tudo nas calcas, inclusive evacuar.” Ele tirava a cueca suja de fezes e arremessava pela janela. Ela ainda explicou que foi notificada várias vezes pelo condomínio por conta das cuecas que caiam no capô dos carros.

E o desfecho?
Como é que se reverte um negócio que está assim há dois anos? Que é altamente prazeroso para a pessoa. Esse rapaz teve que ser internado, porque tinha transtorno bipolar associado. Depois de uma semana o pai exigiu que ele fosse liberado. Não sei o que aconteceu depois... Na verdade tem de tudo, não acho que a questão de horas seja tão alarmante assim, o problema é que você pode se tornar dependente com 10 horas, com 20h, com 1h, depende qual é o propósito que está por traz dessa conexão. Se você usa a internet como uma forma de se refugiar do mundo você já é um dependente com 1h hora de uso.

Como o cidadão pode perceber esse vício se o tiver e tentar se desvencilhar?
Vamos diferenciar que existe o usuário comum, o abusivo e o dependente. A dica que a gente costuma dar é a seguinte. Fique de olho quando você não consegue fazer qualquer atividade prazerosa em que ela não esteja conectada a internet. Ou seja, quando não tem o que fazer vai pra internet, quando está entediado vai pra internet, deprimido etc. Usa a internet como maneira de regular seu humor. Um paciente nosso descrevia “A internet é meu prozac virtual. Quando eu entro me sinto bem.”

A maioria dos casos graves migra para a coisa física?
Não diria que a maioria, vou dizer que existem muitos casos com essa descrição da síndrome de abstinência.

Como funciona o ambulatório?
Acontece uma vez por semana, às quartas-feiras de manhã. Esses pacientes chegam, são triados pelo médico e fazem a avaliação médica e depois eles vão para a psicoterapia em grupo. Em torno de uns 80 pacientes já passaram pelo ambulatório.

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